PORQUE VOA UM AVIÃO?
Por José Colarejo
Para a maioria das pessoas, a resposta à pergunta que
serve de título a este artigo é quase evidente:
– “Um avião voa porque tem asas!”
Para um aeromodelista, esta resposta é naturalmente insuficiente,
pois a pergunta seguinte seria: – “E que propriedade
têm as asas para permitir o vôo?”
É pois a resposta a esta segunda pergunta que iremos
tentar dar aqui, da forma mais simples possível.
Os aviões movem-se no seio de um elemento fluído
que é o ar. O ar e a água, são os dois
fluídos mais comuns na Natureza, mas cada um deles possui
uma característica que estabelece uma diferença
fundamental:
– o ar é um fluído compressível;
– a água é um fluído considerado
praticamente incompressível.
Esta diferença, sendo muito importante para o estudo
de diversos fenômenos, não é muito relevante
para o que vai ser explicado seguidamente, pelo que será
lícito recorrer a analogias hidráulicas que permitam
visualizar melhor os fenômenos em análise.
Consideremos um rio, que vamos imaginar sem afluentes, ou seja,
o seu caudal (quantidade de água transportada na unidade
de tempo) será constante ao longo do seu percurso. É
do conhecimento comum que o nosso rio correrá de forma
muito rápida se estiver marginado por um desfiladeiro
estreito, enquanto deslizará mansamente quando se espraia
na planície. E voltará a correr mais depressa,
se enfrentar outro desfiladeiro.
Significa isto que, para um caudal constante, a velocidade será
maior para secções com menores áreas de
passagem, e vice versa.
Podemos ver esse efeito na figura 1, onde as duas situações
estão exemplificadas, supondo uma conduta na qual passa
água.
Figura 1
Vemos, assim, que a velocidade cujo valor é V1, à
passagem na secção com a área A1, aumenta
para V2, na passagem mais estreita A2, e volta a reduzir para
V3 na secção mais larga A3.
Para quem for mais dado às matemáticas, isso significa
que o caudal de escoamento Q se mantém constante, enquanto
as secções e velocidades variam inversamente.
Ou seja:
Q = A1 . V1 = A2 . V2 = A3 . V3 = constante
Pelo que, para A2 < A1, vem V2 > V1. E, inversamente,
para A3 > A2, vem V3 < V2.
Para quem não quiser saber de matemáticas, interessa
reter que:
Caudal = Área ´ Velocidade = constante
O que acabámos de enunciar, constitui o chamado princípio
da constância de caudais.
Como observação marginal, que não vem para
o estudo que estamos a fazer, fica ainda a nota que as variações
de secção, se forem bruscas, causam turbilhões
(figura 1). É pois importante, para o bom rendimento
do escoamento do fluído, que todas as superfícies
sejam arredondadas e com formas suaves.
Voltando aos nossos aviões, e embora uma asa possa, no
limite, ser uma tábua plana, é usual que tenha
uma forma transversal especial a que chamamos perfil alar ou,
simplesmente, perfil.
A figura 2 mostra dois tipos de perfil dos mais usados em aeromodelismo.
Só por uma questão de nomenclatura, recordemos
que a superfície superior do perfil se chama extradorso
enquanto a superfície inferior se chama intradorso. A
linha imaginária que une o bordo de ataque com o bordo
de fuga, chama-se corda.
PERFIL CÔNCAVO-CONVEXO
PERFIL BI-CONVEXO ASSIMÉTRICO

Figura 2
Do ponto de vista da Mecânica de Fluídos, apenas
interessa o movimento relativo do ar em relação
ao perfil. Isto é, tanto faz considerar o ar parado e
o perfil em movimento, como o perfil parado enquanto o ar se
move.
Tendo em atenção o anteriormente dito, e porque
nos é mais cómodo para o raciocínio, vamos
optar por considerar o perfil parado (como, por exemplo, quando
está no interior de um túnel aerodinâmico),
enquanto é submetido à passagem de um fluxo de
ar.
Vamos agora fazer um pequeno exercício mental e imaginar
duas condutas, que incluem um perfil côncavo-convexo,
e por onde vai passar um fluxo de ar, a uma certa velocidade.
Vamos chamar-lhes “conduta virtual superior” e “conduta
virtual inferior” (ver figura 3).
As “paredes” imaginárias dessas “condutas”
são constituídas da seguinte forma:
– Parede inferior da conduta virtual superior: Extradorso
do perfil da asa, prolongado para a frente e para trás
por planos horizontais, alinhados com a corda do perfil.
– Parede superior da conduta virtual superior: Plano horizontal
colocado num ponto onde já praticamente não se
note o efeito de deflexão do ar, provocado pela presença
do perfil.
Identicamente:
– Parede superior da conduta virtual inferior: Intradorso
do perfil da asa, prolongado para a frente e para trás
por planos horizontais, alinhados com a corda do perfil.
– Parede inferior da conduta virtual inferior: Plano horizontal
colocado num ponto onde já praticamente não se
note o efeito de deflexão do ar, provocado pela presença
do perfil.
CONDUTA VIRTUAL SUPERIOR
CONDUTA VIRTUAL INFERIOR

Figura 3
Se pudermos visualizar o escoamento do ar, vamos observar que,
em relação a uma velocidade base de passagem V1,
o ar vai aumentar de velocidade (V2) na zona do extradorso do
perfil, e reduzir de velocidade (V3) na zona do intradorso do
perfil, tal como já foi explicado na figura 1. Após
a passagem pelo perfil, as velocidades tendem a recuperar para
o valor original (V1).
Existe uma fórmula da Mecânica de Fluídos,
que se chama Equação de Bernoulli e que tem a
seguinte forma:
onde:
V – é a velocidade do escoamento (tomada ao quadrado),
num dado ponto ;
g – representa a aceleração da gravidade;
P – é a pressão no seio do fluído,
no ponto considerado;
r – representa a massa específica (densidade)
do fluído;
h – é a altura, em relação a um
certo referencial, do ponto onde se passa o fenómeno.
Sem nos deixarmos assustar pelos aspectos matemáticos,
vamos ver o que tudo isto significa fisicamente. Para já,
se considerarmos que vamos estudar o fenómeno sempre
à mesma altura, podemos ignorar a parcela h.
Identicamente, se, para os vários pontos em análise,
estivermos no mesmo local geográfico, tanto a aceleração
da gravidade como a densidade do ar serão as mesmas.
Então também podemos ignorar a presença
dos factores g e r, porque serão sempre constantes.
Fica-nos, para balancear, a velocidade de escoamento e a pressão
no seio do fluído.
Se ambos estes factores pertencem, cada um deles, a cada uma
das parcelas de uma soma, não precisamos de matemáticas
para perceber que, sendo a soma constante, então, se
um dos factores aumentar, o outro tem necessariamente de diminuir.
Ou seja, como vamos ver na figura 4 (que é semelhante
à figura 3), se tivermos uma corrente de ar, à
pressão de base P1 (que será a pressão
atmosférica normal), escoando-se à velocidade
V1, quando a velocidade aumenta à passagem pelo extradorso
do perfil (V2), vamos ter uma redução de pressão,
naquela zona, para o valor P2. Notemos que, sendo P2 menor que
P1 (que por sua vez é a pressão atmosférica
normal), isso corresponde a um efeito de sucção.
Figura 4
De forma similar, no intradorso do perfil vai haver uma redução
de velocidade, para o valor V3, a que corresponderá uma
pressão P3, maior do que P1. Note-se que, sendo P3 mais
elevada do que a pressão atmosférica, isso corresponde
a um efeito de compressão.
Ou seja, para V2 > V1, corresponde P2 < P1 e para V3
< V2, corresponde P3 > P1.
Este efeito pode ser facilmente observável com a ajuda
do dispositivo que se indica na figura 5, o qual é constituído
por três tubos de diferentes secções, ligados
entre si por concordâncias cónicas. A um conjunto
destes dá-se o nome genérico de venturi, se bem
que esta designação possa ser aplicada a sistemas
com formas muito variadas.
Figura 5
Através do dispositivo indicado, faz-se passar um fluxo
de ar. Como já sabemos, em cada uma das secções
vão existir velocidades diferentes, inversamente proporcionais
à área da respectiva secção. Se,
de cada uma das secções, baixar um pequeno tubo
transparente, para uma tina com água, verificaremos que
a água vai ser aspirada com tanto mais sucção
quanto menor for a área da secção onde
o tubo está ligado.
Isto acontece porque a pressão P2 é menor do
que a pressão P1. Por seu lado, a pressão P3 é
maior do que a pressão P1. Ou seja, tal como já
tínhamos visto na figura 4:
P2 < P1 e P3 > P1
Recordemos que todo o cenário exposto na figura 4 é
virtual, à excepção do perfil que é
bem real. É pois sobre este que se vão exercer
as forças de sucção (no extradorso) e de
compressão ou impulsão (no intradorso), representadas
na figura 4 (a azul) por forças elementares si, supostamente
distribuídas por toda a superfície da asa.
Ao conjunto dessas forças elementares damos o nome de
força de sustentação, a qual supomos aplicada
num único ponto teórico do perfil, denominado
centro de pressões ou, também, centro de sustentação
(ver figura 6).
centro de sustentação
S = S si

Figura 6
Acabámos de analisar o fenómeno da sustentação,
visto num perfil côncavo-convexo que é o perfil
por excelência aplicado nos planadores, e onde os fenómenos
de sustentação, entre o extradorso e o intradorso,
são aditivos. Trata-se de um perfil com características
aerodinâmicas adequadas a baixas velocidades e com grande
capacidade de sustentação a essas mesmas baixas
velocidades.
Para maiores velocidades, usam-se perfis do tipo bi-convexo
assimétrico (ver figura 2). Se aplicarmos a este tipo
de perfis todo o raciocínio anterior, conclui-se que,
neste caso, no intradorso acontece um fenómeno com efeitos
opostos ao do intradorso. Isto é, as forças aplicadas
são subtractivas, resultando a sustentação
final da diferença predominante na zona de maior curvatura
do perfil. Este tipo de perfil obtém a necessária
sustentação à custa de maiores velocidades.
Resta falar das asas tipo “tábua”. Como
se pode ver na figura 7, elas obtêm a sua sustentação
apenas à custa de um certo ângulo de ataque. No
fundo, podem ser consideradas uma variante muito ligeira de
um perfil assimétrico. A adicionar a este fenómeno,
surge ainda um efeito da componente vertical da pressão
dinâmica do ar ao “chocar” contra a superfície
inferior.
Escusado seria dizer que só a acção de
velocidades relativamente elevadas poderá obter uma sustentação
significativa com um "perfil" destes. Em modelos rudimentares
de voo circular, encontramos muitas vezes asas de construção
maciça, apenas ligeiramente arredondadas no bordo de
ataque e um pouco desbastadas junto ao bordo de fuga, que são
praticamente um perfil do tipo "tábua".
Figura 7
Agora já podemos responder, com consciência de
causa, à pergunta inicial deste artigo:
– Os aviões voam porque
o perfil das suas asas cria uma força aerodinâmica
de sustentação !
Retirado de:
http://clubeaerolisboa.do.sapo.pt/aerodinamica/aerodinamica1.htm
Lisboa, 2001-04-09
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